segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Paulo Santos e a Revolução pernambucana de 1817


(Ovelhas Desgarradas - 29)

O jornalista pernambucano Paulo Santos afirmou, em debate realizado na 54ª Feira do Livro de Porto Alegre no domingo, 9 de novembro, que decidiu escrever sobre a Revolução de 1817 ocorrida em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte na forma de um romance histórico, que intitulou A Noiva da Revolução, porque esta era sem dúvida a melhor forma de transmitir a beleza da história desse movimento, inteiramente desconhecido do público atual. Seu companheiro de mesa, o escritor gaúcho Alcy Cheuiche, autor de diversos romances históricos, defendeu este gênero literário, juntamente com o cinema, como eficientes popularizadores da História, embora saiba das restrições feitas por historiadores:

- O próprio Exército francês apontou um capítulo do romance Os Miseráveis, de Vitor Hugo, como a melhor descrição da batalha de Waterloo, superando a infinidade de livros de historiadores que também trataram do tema.

Santos não demorou a descobrir as causas do quase completo esquecimento da Revolução, vista apenas de passagem nas aulas de História do Ensino Médio: foi um movimento que propunha, há quase 200 anos, a abolição da escravatura, a República, a igualdade entre todas as pessoas e a participação política das mulheres - este último item nem a Revolução Francesa ousara propor, em 1789. Por ser a primeira afronta direta à autoridade do monarca português desde a criação do reino de Portugal, no século 12, a memória da Revolução de 1817 foi abafada durante todo o período do Império (a família real brasileira descendia da portuguesa). Só com o advento da República sua história começou a circular mais amplamente, inclusive com a comemoração de seu centenário em 1917. Mais adiante, porém, o Estado Novo, ao pretender o Brasil um país unitário, cerceou o espaço para liberdades regionais ou sua lembrança, deitando novamente sobre o movimento uma sombra da qual ele só saiu quando do lançamento do livro de Paulo Santos, no ano passado.

Depois disso, rapidamente o tema voltou à ordem do dia: o governador Eduardo Campos decretou como Dia da Bandeira de Pernambuco a data de 2 de abril, como referência à criação da bandeira revolucionária, que segue sendo usada pelo Estado de Pernambuco. Em votação popular, o dia 6 de março, data do início do movimento, passou a ser o feriado de data magna do Estado. Além disso, Santos tem feito várias palestras sobre o tema para professores de História - e até para os integrantes do centenário Maracatu Leão Coroado, pois já havia se perdido no tempo a referência de que seu nome de batismo homenageava José de Barros Martins, um dos líderes da revolução, apelidado de Leão Coroado por ter cabelo comprido, menos na parte superior da cabeça, calva. Outro ponto digno de nota é que, em sua pesquisa, Santos encontrou vários textos de historiadores analisando aspectos ou conseqüências do movimento, mas não uma cronologia estabelecendo a seqüência correta dos fatos; elaborou uma e incluiu-a na obra.

A revolução iniciou porque o brasileiro Domingos José Martins, nascido no Espírito Santo, queria se casar com Maria Teodora, filha de um comerciante português estabelecido no Recife, que era contra a união. Maria tinha 17 anos em 1817 e namorava Domingos desde os 13. O livro de Santos tem duas linhas narrativas: a de Domingos, através de seu diário, e a de Maria Teodora, através das observações que faz sobre o diário do marido (é a Maria Teodora que Santos recorre ao escrever sobre episódios não totalmente esclarecidos, que desta forma aparecem como opinião da personagem). O casamento de ambos, uma semana após o início da revolução, também era em si revolucionário, ao ser uma união por amor numa época em que os pais, atendendo seus próprios interesses, é que escolhiam com quem os filhos se casariam. A união durou pouco, porém: Domingos foi preso e executado ao final do movimento, que durou 74 dias. Maria Teodora manteve-se viúva por três anos, até casar novamente com um marido com quem teve 27 filhos.

Cheuiche viu muita semelhança nos ideais da Revolução pernambucana e na Revolução Farroupilha, deflagrada no Rio Grande do Sul em 1835, que também teve uma célebre história de amor: a de Anita e Giuseppe Garibaldi. A catarinense Anita abandonou o marido para unir-se ao italiano Garibaldi, lutando ao lado dele em dois continentes - na Europa, tinham como causa a unificação da Itália. Outra ligação entre os movimentos é uma curiosidade: no Rio Grande do Norte, os revoltosos perderam o controle de Natal para os portugueses e transferiram sua sede para o interior, adotando o nome de República de Porto Alegre (porque, por coincidência, a cidade escolhida para capital tinha o mesmo nome da capital gaúcha). Cheuiche lançou a idéia de realizar um simpósio entre estudiosos gaúchos e pernambucanos para estudar as semelhanças entre os dois movimentos revolucionários.

O fato mais curioso levantado por Santos liga o ex-imperador Napoleão Bonaparte ao movimento pernambucano. O embaixador da República de 1817 nos Estados Unidos, Cruz Cabugá, queria aproveitar a experiência de soldados franceses exilados na América do Norte e propôs o seguinte: eles iriam para Recife lutar com Domingos Martins e Leão Coroado, e em troca um destacamento pernambucano iria libertar Napoleão na ilha de Santa Helena! Apenas quatro soldados aceitaram a proposta, mas nenhum navio chegou a sair para Santa Helena porque os franceses só chegaram ao Recife quando a revolução já havia sido derrotada e eles foram imediatamente presos.



  • Making-off do texto - Meu quinto texto publicado no site do Café Colombo, em 12.11.08. O título que usei aqui é o mesmo que o site colocou, resumindo meu título original:

PAULO SANTOS RECUPERA MEMÓRIA
DA REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817

  • Como de hábito, recebeu uma breve introdução dos redatores do site: Do nosso correspondente na Feira do Livro de Porto Alegre, o jornalista especializado em cultura Fabio Gomes. 


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