sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Noel Rosa, Cantor

Ao longo do tempo, as gravações feitas por Noel Rosa têm recebido pouca atenção. Entre 1930 e 1936, ele gravou 42 músicas de sua autoria, entre elas clássicos como "Com que Roupa?", "Gago Apaixonado", "Feitiço da Vila" e "Conversa de Botequim" (as duas últimas, parcerias com Vadico).

Em 21 dessas músicas - ou seja, exatamente metade deste repertório - , Noel convidou alguém para dividir o vocal; a recordista foi Marília Batista, que gravou com ele 6 sambas, mas a lista inclui parceiros como Ismael Silva, João de Barro, Artur Costa e ainda I. G. Loyola, João Petra de Barros e Léo Vilar (mais tarde líder dos Anjos do Inferno). Curiosamente, Noel dava preferência a fazer duetos nas músicas que compunha de parceria – são 13 duetos em músicas com parceiros, contra apenas 8 em obras assinadas exclusivamente por ele. Desconheço o motivo.

A obra gravada do Poeta da Vila, deste modo, aponta em duas direções. Numa, ao fazer tantas parcerias vocais, Noel mostrou-se um artista do seu tempo: como cada disco tinha apenas duas músicas, e muitos cantores lançavam vários discos por ano, esses duetos ocasionais eram muito comuns. Noutra, ao gravar regularmente suas composições, o que era raro na época, Noel antecipou o que é quase uma regra hoje, quando são poucos os artistas exclusivamente cantores.

A pouca atenção mencionada para esta obra gravada se reflete nas lacunas das discografias das biografias de Noel escritas por Almirante e João Máximo & Carlos Didier, onde não consta o número da matriz de cada disco, dado importante para que se consiga estabelecer, mesmo que de modo aproximado, em que data cada música foi gravada e até mesmo em que gravadora. Nosso levantamento traz os números de todas as matrizes.

Só posso atribuir essas lacunas ao descaso com que a obra de Noel como cantor tem sido tratada. Embora haja muitos relatos do sucesso que ele fazia cantando no rádio e em shows, e a venda expressiva de discos como o "Com que Roupa?", também se sabe de restrições que Noel recebia por não ter um "vozeirão", o que era muito valorizado em seu tempo.

Certamente outro fator que contribuiu para a pouca difusão das gravações de Noel ao longo do tempo foi o fato de ele, num período bastante curto, ter atuado em várias gravadoras, que nem sempre tinham depois repertório suficiente para um LP ou CD inteiro (na Victor, hoje parte da Sony Music, por exemplo, Noel gravou apenas quatro músicas). Assim, só quando do lançamento da caixa de CDs Noel Pela Primeira Vez (Velas/Funarte, 2000), o público teve acesso à totalidade das interpretações de Noel para suas próprias músicas. Sim, porque, como o conceito da caixa era de músicas assinadas por Noel, não havia como incluir o samba "Sentinela, Alerta!", de Ary Barroso, que o Poeta da Vila gravou em dupla com João Petra de Barros.



  • O texto era inédito até hoje, com exceção (novamente!) do segundo parágrafo. O título deste texto inspirou o novo título do texto publicado na semana passada
  • Fazia parte do pacote ainda a charge que abre o texto (charge que, escaneada por mim, ganhou o mundo, como contei em texto recente).
  • O levantamento mencionado no final do quarto parágrafo é a revisão completa da discografia original do Poeta Vila como cantor, compositor e instrumentista, e que será disponibilizada em futuras Sextas do Noel. As fichas técnicas dos CDs virtuais de Noel disponíveis para download aqui no blog já são baseadas neste levantamento. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Opinião Cinema: Lady Macbeth

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro




Baseado em Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk (1865), do russo Nikolai Lenskov - que se inspirou na personagem da tragédia Macbeth (c. 1603-07), do inglês William Shakespeare -, o primeiro longa tanto do diretor William Oldroyd quanto da roteirista Alice Birch chega aos cinemas com uma nova visão da personagem que já inspirou tantas obras. Apesar de serem estreantes vemos, nitidamente, que eles não têm medo de arriscar e mostrar a sua verdade, provocando o público e nos apresentando a personagem mais complexa e delicada dos últimos tempos. 

Inglaterra, zona rural, 1865, Katherine (Florence Pugh) é trocada por terras por Boris (Christopher Fairbank) para se casar com seu filho Alexander (Paul Hilton). Alexander a trata como propriedade, não liga para sua esposa, nem sequer tenta “consumar” o casamento – quando chegar em casa manda a esposa tirar a roupa e virar para a parede, enquanto ele prefere se masturbar. Durante uma viagem de negócios do marido, Katherine se aproxima do empregado Sebastian (Cosmo Jarvis); os dois logo viram amantes e cúmplices. 

O filme é um misto de emoções. Uma boa parte é chata, monótona, repetitiva, a outra é surpreendente, um pouco assustadora e totalmente diferente. O longa tem como principais temas a sociedade, as relações de poder e principalmente o lugar da mulher. 



A personagem principal possui, no começo, uma vida muito  monótona, o que é mostrado em todas as ações diárias que se repetem como: o abrir da janela toda manhã, a escovação do seu cabelo pela criada Anna, as roupas apertadas e incômodas, isso serve para entendermos toda a opressão em que ela está inserida. Infelizmente, apesar da boa intenção, nós ficamos extremamente entediados, nunca imaginei isso, mas nos 10 primeiros minutos, eu quase levantei e fui embora – ainda bem que resolvi ficar e dar uma chance-. 

Graças a God o tom começa a mudar, para o sombrio, quando Sebastian aparece. A protagonista finalmente se liberta, todo o longa fica com suspense no ar, ficamos intrigados se ela está fazendo aquilo por amor, loucura ou puro egoísmo. Toda a produção é complexa, mas sem dúvidas, Katherine é uma das personagens mais fortes e confusas do cinema. Florence Pugh mesmo assim consegue interpretá-la de forma perfeita,  é um deleite a cada olhar, postura, fala, virada dramática. O resultado, nas telas, é realmente incrível, Pugh demonstra uma maturidade e um conhecimento invejável. 

Além de Florence, Naomi Ackie nos apresenta uma Anna com olhar vazio, triste, que não sabe o que fazer, de fato outra interpretação fantástica. Tirando elas, o elenco em si é bom, nada tão fantástico, apenas todo mundo fazendo sua interpretação certinha. 



O longa é direto, e isso é bom, tudo contado de forma clara, a ambientação toda é simples, só que de uma forma bonita, a casa principal não tem nada de glamourosa, não está cheia de objetos cênicos, tudo demonstra justamente aquelas tristeza e monotonias que comentei no começo. A direção de arte e figurino são realistas e detalhistas, a fotografia é simples, mas bonita, poucas cores, porém as mais vibrantes aparecem sempre do lado de fora, com planos mais longos, simbolizando a liberdade e a vida que Katherine não possui em casa. 

Lady Macbeth é um filme complicado, com falhas, que realmente nos deixa confusos sobre nossa opinião. Ele me fez ter medo, ficar confusa, querer ir embora, buscar detalhes na história e tantas outras sensações e emoções. E, incrivelmente, isso demonstra todo potencial do diretor, afinal, qual seria a melhor função do cinema do que não nos intrigar? Falando nisso, vou até assistir de novo para procurar mais detalhes e desvendar esse nó da minha cabeça.






sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Noel Rosa, Compositor




Esta coletânea - Noel Rosa Compositor Vol. 1 - organizada por mim e lançada pelo blog Noel Rosa Sempre reúne 13 músicas de autoria de Noel Rosa gravadas originalmente por outros intérpretes, estando composições e fonogramas em domínio público – inclusive duas parcerias, “Meu Sofrer”, com música de Henrique Brito, falecido em 1935, e “Esquecer e Perdoar”, que Noel escreveu com Canuto, morto em 1932. Há pelo menos três obras-primas no pacote: “Eu Vou pra Vila”, “É Preciso Discutir” e “Mulato Bamba”.

Considero importante a difusão desta parcela da obra de Noel Rosa, afinal foram os 113 fonogramas lançados de 1928 até 1937 de que Noel Rosa era autor, sozinho ou com parceiros, que o consagraram como um compositor excepcional ainda em vida, um reconhecimento que sabemos ser raro. De toda sua obra póstuma, apenas “Três Apitos”, lançado por Aracy de Almeida em 1951, tornou-se um clássico da música brasileira.

As gravações aqui reunidas foram lançadas originalmente entre 1930 e 1932, e compõem um painel bem variado da obra de Noel, geralmente associado apenas ao samba. Temos tango (“Pesado Treze”, paródia de “El Penado 14” – a única paródia de Noel que chegou ao disco enquanto ele vivia), modinha (“Meu Sofrer”, onde a letra segue os cânones fixados no começo do século 20 por autores como o poeta Catulo da Paixão Cearense, ao mesmo tempo em que antecipa “Eu Sei Sofrer”, do próprio Noel), embolada (“Não Brinca Não”) e até uma “marcha faminta”: “Não me Deixam Comer”, praticamente um esquete cantado que serve como veículo para a graça do cômico Pinto Filho.

Mais que essa variedade, a coletânea documenta a passagem de Noel de um compositor iniciante gravado principalmente pelos amigos para a de um autor de destaque no repertório dos maiores intérpretes brasileiros da época. Até o final de 1931, seus principais intérpretes eram ele mesmo e seus parceiros do Bando de Tangarás (Almirante e João de Barro). Só uma fora gravada até então pelo cantor de maior sucesso da época, Francisco Alves (a marcha “Gosto, Mas não é Muito...”, parceria com Chico e Ismael Silva). Quando Chico foi gravar outra marcha sua ("Palpite", parceria com Eduardo Souto), Noel apresentou-lhe o samba “É Preciso Discutir”, que escrevera especialmente para que gravasse com Mário Reis (a quem coube o famoso verso Para cantar com Francisco Alves em dueto). A partir daí, tornou-se um dos compositores preferidos de Chico e de Mário, gravando juntos ou separados (ou, no caso de Chico, também com outros parceiros vocais). Uma cabal demonstração de como Noel Rosa tinha senso de marketing, quando esta palavra ainda não estava incorporada ao vocabulário cotidiano.

Noel se faz presente em quatro faixas da coletânea, aquelas em que Almirante e Lucila são acompanhados pelo Bando de Tangarás (“Não Brinca Não” foi a última gravação de Noel com o grupo). Em “Dona Aracy”, é possível ouvi-lo fazer o contracanto Dona Aracy... na segunda e na quarta repetições do refrão (alternando-se com João de Barro, que faz a primeira e a terceira), e é seu o violão que cadencia “Eu Vou pra Vila”.


  • Making-off do texto - Texto escrito em setembro de 2011 para acompanhar, juntamente com a charge de autoria do próprio Noel Rosa que abre o post, o pacote de download do CD virtual Noel Rosa Compositor - Vol. 1, lançado em 1.10.11. 
  • Texto inédito até hoje, à exceção do segundo parágrafo. 
  • O título original deste texto era o mesmo do CD que ele acompanhava. O novo título foi dado hoje. 
  • Os primeiros dez downloads do CD foram oferecidos como brinde aos primeiros inscritos na segunda turma de setembro de 2011 do meu Curso à distância de Jornalismo Cultural



quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Entrevista: Jornalismo Cultural na internet

Em 19 de março de 2013, o jornalista Franthiesco Ballerini, por e-mail, convidou-me para ser o "entrevistado central" do capítulo sobre Jornalismo Cultural na internet do livro que ele estava escrevendo na ocasião (mais detalhes no final do post). Estas foram as respostas que encaminhei no dia 8 de abril, uma semana antes do prazo final.


Sendo entrevistado pela jornalista Raísa Carvalho
para a
Folha de Boa Vista - 11.3.13

***

De modo geral, o que você acha da presença e da cobertura de jornalismo cultural nos blogs e portais nos últimos anos?

Creio que estamos vivendo uma etapa de expansão, com o surgimento de novos blogs e portais e consolidação dos já existentes. Depois de um período em que as pessoas se voltavam mais para redes sociais, e cujo auge considero ter sido no ano passado, noto que novamente os blogs voltam a ser referência na área. Muita coisa boa é veiculada em redes como o Facebook, porém a falta de um bom mecanismo de pesquisa impede que se localize facilmente um conteúdo publicado por um amigo seu (ou mesmo por você mesmo) na semana passada, pior se for algo mais antigo. Blogs e portais levam vantagem por serem facilmente pesquisáveis, indexáveis pelo Google, além de serem páginas que estão abertas a qualquer internauta. 

Quais foram as grandes mudanças na cobertura de cultura e entretenimento na internet com a proliferação de sites no século 21?

Eu considero, primeiramente, que a própria internet causou no jornalismo cultural uma das maiores mudanças desde a década de 1950, quando se tornou comum órgãos de imprensa apoiarem ou promoverem eventos culturais. A partir de meados da década de 1990, com o advento da internet,  pela primeira vez a imprensa não é mais necessária para a mediação entre artistas e público. Tanto artistas quanto público podem se expressar livre e diretamente, através de sites, blogs, Twitter e redes sociais. Seja gerando notícia (artistas e fãs), seja opinando sobre eventos culturais (fãs). Esta transformação segue em curso. 

Pensando em termos da própria internet, ao longo desses 17 anos de presença brasileira na rede, as mudanças têm sido o que a tecnologia de cada momento permite. Os primeiros sites, até o final do século passado, tinham poucas imagens, raríssimos áudios e vídeos e nenhuma interação em tempo real (interagir com um site era você mandar um e-mail para ele). Antes do YouTube, ter um vídeo em seu site exibia muita capacidade de armazenamento, e conhecimentos técnicos para criar um player para o vídeo. A partir de 2005, isso deixa de ser necessário. Em 2007, surge um similar do YouTube para áudio, o Souncloud, que veio facilitar a inserção de áudio principalmente em blogs (antes dele, para abrigar streaming de áudio era necessário registrar um domínio - ou seja, ter um site - e hospedar lá seus MP3s, além de precisar criar um player para os internautas ouvi-los). Estas modificações foram importantes, porque atualmente se você apenas posta um comentário ou notícia sobre um CD, mas não põe amostra alguma do som, o internauta se frustra, pois espera que o portal ou blog exercite ao máximo a convergência de mídias que a internet possibilitou. 

Você acredita que os jornalistas que cobrem cultura na internet têm a formação acadêmica, cultural e pessoal necessárias para tal? Por quê?

Desconheço estatísticas neste sentido. O ideal seria que sim, mas sabemos que hoje nem mesmo para escrever para impressos é exigido diploma (uma verdadeira aberração, que já está mais que na hora de acabar). Em relação a blogs, que geralmente são iniciativas pessoais ou de coletivos não ligados à grande mídia, mesmo que a pessoa não tenha formação específica, dificilmente ela vai se aventurar com o que não tem afinidade - só alguém que estude ou aprecie Filosofia irá cobrir um "Café Filosófico", por exemplo, já que este não é o tipo de evento frequentado por "famosos" e que geraria interesse nos chamados "sites de celebridades". Essa base da afinidade por si só acaba por limitar naturalmente maiores excessos. Já no caso de portais ligados a grupos de comunicação, nem sempre a pessoa tem a mesma liberdade, pode ser escalada para cobrir um evento com o qual não tenha afinidade alguma, por questões de pessoal da redação, interesses da empresa etc. Enfim, de todo modo cabe ao profissional interessado investir na sua qualificação, já que dificilmente a empresa irá fazer algo neste sentido por seu empregado. E acredito que também de certo modo funcione aqui uma espécie de "seleção natural" - se não tiver afinidade com a área, o profissional acabará por deixá-la, rumando para outra editoria com que se identifique mais.

Quais são as diferenças principais das matérias de cultura e entretenimento vistas em portais e blogs com relação ao que se vê na mídia tradicional (jornais e revistas)?

A principal diferença é a presença da opinião. Na mídia tradicional, o espaço opinativo em jornalismo cultural vem se reduzindo. O que se formos parar para pensar é espantoso, pois a cultura é a única editoria onde os eventos são anunciados no veículo, que depois não publica uma linha dizendo se eles ao menos aconteceram - só se dá o "antes", nunca o "depois", salvo raras exceções. Mas também há outras diferenças: a quantidade de assuntos publicada e o tamanho das matérias podem ser bem maiores na internet do que no meio impresso, sem falar no imediatismo. Hoje com um simples celular o repórter pode publicar na internet vídeo ou fotos de um show ou evento cultural que ainda esteja em andamento. 

Quais são os maiores obstáculos para se cobrir cultura na internet?

Para os blogs e páginas não ligados a grandes grupos de comunicação, a maior dificuldades geralmente é o acesso aos eventos - credenciamentos nem sempre são concedidos - e também a bens culturais - há quem ainda faça press-kit apenas para redações dos grandes veículos. Essa situação gera uma dificuldade correlata, que são os custos de cobertura - muitos não têm como pagar o ingresso, mais ida e volta ao local do evento. Ainda há também artistas e produtores que desdenham da oportunidade de falar para um veículo "alternativo". Mas essa sensação de pouca credibilidade associada ao meio internet está em franco declínio, felizmente. Outro fator que outrora era quase proibitivo, os custos de acesso à internet e manutenção das páginas, hoje não pesa tanto, devido à proliferação da rede de banda larga, lan houses, celulares e smartphones com acesso à internet - enfim, hoje é bem mais fácil navegar, e optar por ter um blog elimina o custo de criação e manutenção de um site. 

A linguagem utilizada na cobertura de cultura na internet é formadora de novos públicos ou há vícios de linguagem?

Tenho visto poucos vícios de linguagem nos portais e blogs que acesso, mas não sei se a excelência neste campo, por si só, formaria novos públicos. Vejo isto mais ligado aos assuntos abordados e à maior possibilidade de acesso à rede. 

Você acredita que a cultura é um campo privilegiado na internet ou é deixada de segundo plano em detrimento de política, economia, cidades?

Diferentemente dos meios impressos, com escassez de espaço, e dos eletrônicos, com escassez de tempo, a internet não tem essas limitações. Mesmo assim, nos portais de cobertura geral, não vejo aumento do espaço destinado à cultura, sendo uma proporção semelhante à dos veículos impressos similares. Mas também há bem mais veículos (no caso, sites e blogs) destinados exclusivamente à cobertura cultural, o que não ocorre no meio impresso. 

Você acha que o jornalismo cultural na internet brasileira segue as fórmulas e padrões de outros países do ocidente? Se pudesse, gostaria que ressaltasse as diferenças, caso conheça algumas delas.

Não tenho elementos para responder a pergunta. 

De modo geral, quais você acha que são os rumos que o jornalismo cultural está tomando na internet neste século 21?

Conforme já falei anteriormente, vejo como principais características do período o aprofundamento da convergência de mídias e um renascer do interesse por blogs, talvez porque as redes sociais não se mostraram tão aptas como os blogs para a cobertura cultural. 

***

Como última pergunta, Ballerini me pedia que indicasse outra pessoa do ramo que pudesse gerar uma boa entrevista, e indiquei a jornalista Luciana Medeiros, do blog Holofote Virtual (Belém). 

O livro saiu pela Summus Editorial em 2015 (ao lado, sua capa), porém eu só soube disto em abril deste ano, quando uma jornalista me procurou querendo saber mais sobre o mercado para jornalistas culturais, dizendo que havia lido minha entrevista no referido livro. 


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Sextas do Noel

A partir de hoje, as sextas-feiras aqui no blog Jornalismo Cultural serão dedicadas a Noel Rosa. Nem vou me preocupar em resumir sua trajetória por dois motivos: ou você já conhece Noel, ou se ainda não conhece o texto publicado logo abaixo será, acredito/espero uma apropriada introdução.

Noel Rosa sempre foi personagem frequente de meus textos sobre música brasileira, principalmente a partir de 2008, quando criei no meu site Brasileirinho um hotsite inteiramente dedicado à sua obra que se encontra em domínio público (já falei disso no texto publicado ontem nas Ovelhas Desgarradas - "Vamos Falar de Domínio Público?"). Como o site saiu do ar ano passado, se perdeu o acesso a este conteúdo.

E o que havia no hotsite? Além de textos meus de variados tamanhos e datas sobre Noel ou onde ele era citado ao lado de outros grandes nomes da MPB, muito material original de autoria do próprio Noel - poemas, pensamentos, peças radiofônicas, textos variados, charges etc., além claro de sua produção musical. 

As músicas de Noel em domínio público já estão parcialmente publicadas aqui no blog, na aba CDs de Noel Rosa para baixar. Até o momento são 3 CDs virtuais (dois com Noel cantando, o terceiro com interpretações de sua obra por outros cantores). Nesse processo pretendo completar com novos CDs a totalidade das gravações originais de composições de Noel cujos fonogramas já se encontram igualmente em domínio público. 

Uma curiosidade: cada um desses CDs virtuais é acompanhado por ficha técnica das faixas (baseada na discografia que eu elaborei, corrigindo inúmeras falhas e omissões disseminadas ao longo do tempo em diversas biografias do artista), uma charge de autoria do próprio Noel e um texto meu inédito. Estes textos nunca foram publicados na íntegra em lugar algum, portanto até hoje só foram lidos por quem baixou os CDs. Até hoje? Sim, porque é exatamente por estes textos que iremos começar as Sextas do Noel! Vem com a gente. 

=)



Noel Rosa

Noel de Medeiros Rosa (1910-1937), compositor, cantor, instrumentista, poeta e cartunista, é considerado pela crítica especializada como um dos mais geniais músicos brasileiros. Em apenas 26 anos de vida, transitou por quase todos os gêneros musicais conhecidos em seu tempo, como toada, valsa, rumba, embolada, marcha e fox-trot; foi ao samba, porém, que mais se dedicou, tendo sido o único autor da década de 1930 a ser parceiro tanto de músicos com formação erudita como Eduardo Souto e Ary Barroso quanto de autodidatas como Cartola e Ismael Silva.

Poucos artistas brasileiros produziram em tão pouco tempo uma obra tão vasta e de tamanha qualidade. Noel deixou um legado de 259 músicas, entre as quais clássicos da música popular brasileira como “Com que Roupa?”, “Palpite Infeliz”, “Fita Amarela”, “Conversa de Botequim” e “Feitiço da Vila” (as duas últimas em parceria com Vadico). Tematicamente, tanto abordou temas universais, como amor e tristeza, quanto traçou um retrato do Rio de Janeiro de seu tempo, ao descrever seus bairros e seus tipos característicos, em letras com humor, ironia e romantismo. Em suas melodias elaboradas, várias de suas soluções harmônicas antecipavam os avanços da Bossa Nova.

Também é incomum a perenidade de sua produção, toda escrita para veiculação imediata em meios de comunicação de massa como o rádio e o cinema, ou aproveitamento em obras culturais de caráter efêmero como o teatro. Talvez por isso, sua obra foi praticamente esquecida logo após sua morte e só voltou a ser valorizada em 1951, através da iniciativa de dois contemporâneos seus: Almirante, que produziu o programa No Tempo de Noel Rosa para a Rádio Tupi, e Aracy de Almeida, que gravou uma série de discos para a Continental, com arranjos especiais de Radamés Gnattali, numa edição luxuosa com capa de Di Cavalcanti, com vários sucessos antigos e algumas inéditas - entre elas o clássico “Três  Apitos”. Desde então, jamais a obra de Noel deixou de ser gravada e executada por intérpretes de todo o Brasil; muitos de seus sucessos, como “Com que Roupa?”, têm sido cantados por sucessivas gerações.

Pouca atenção tem sido dada à atuação de Noel como cantor, gravando 42 composições suas. Nenhum outro intérprete da época levou tantas músicas de Noel ao disco quanto ele mesmo. Desta forma, ele foi um precursor da tendência de o próprio autor interpretar o que compôs - hoje quase uma regra, mas algo raro à época. Menos atenção se dá a seu papel como instrumentista: foi tocando violão no Bando de Tangarás que Noel começou sua atuação profissional na música, em 1929. Até 1932, participou de registros históricos como o de “Na Pavuna” (Almirante – Homero Dornellas), o primeiro samba com forte percussão a ser gravado. É conhecida ainda sua presença nos grupos Batutas do Estácio, Turma da Vila e Noel Rosa & seu Grupo.



  • Making-off do texto - Escrito em setembro de 2009 a pedido de uma cantora que planejava gravar um CD unicamente com composições de Noel Rosa (inscrito num edital, o projeto não foi aprovado e o CD nunca saiu). 
  • Foi este texto  que escolhi para acompanhar o pacote de download do CD virtual Noel Rosa Cantor - Vol. 1, juntamente com a charge que abre o post, uma autocaricatura de Noel, que se retratou ao microfone da Rádio Mayrink Veiga; o desenho pertenceu ao acervo do ex-presidente João Figueiredo. O CD foi lançado no site Brasileirinho em 2.7.11.
  • Um parágrafo - o segundo - era até hoje o único trecho publicado deste texto, no post linkado acima. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Vamos falar de domínio público?


(Ovelhas Desgarradas - 41)

No Brasil, o tema do domínio público é escassamente debatido. A única vez, de fato, que vi o tema ser bastante comentado foi no começo de 2008, quando, passados 70 anos da morte de Noel Rosa (em autocaricatura ao lado), sua obra passou ao domínio público – que nada mais é que o fim do período de exclusividade de utilização econômica de uma obra intelectual (literária, artística ou científica). Até ali, a maioria das pessoas associava a expressão a um e-mail enviado como spam em que alguém, alarmado, dizia que estava para sair do ar o site www.dominiopublico.gov.br, por falta de acessos (jamais ameaçado, o site completará 7 anos em novembro).

A passagem de uma obra ao domínio público abre uma série de possibilidades interessantes. Permitiu-me, por exemplo, compilar e lançar no blog Noel Rosa Sempre o CD virtual Noel Rosa Cantor – Vol. 1,  apenas com fonogramas liberados, para download gratuito (o único pagamento exigido do interessado é o envio de uma mensagem sobre o CD para sua rede social). Também propicia o surgimento de uma editora como a Legatus, de Alexandre Pires Vieira, que só lança e-books de textos que ele busca no já citado site Domínio Público. Vieira chega a faturar 6 mil dólares por mês com suas vendas na livraria virtual Amazon. Machado de Assis está entre os autores que Vieira publica. Assim como ele, diversos outros editores hoje podem lançar Machado, de modo que há concorrência e o leitor pode optar pela edição que achar melhor. Outros benefícios são a redução de custos para produção de CDs, shows e livros que utilizem obras liberadas.


Alexandre Pires Vieira, dono da Legatus
(Foto: Joene Knaus)


O medo de enfrentar concorrência, num setor da economia onde ela não é habitual, acaba gerando distorções, que se ligam ao silêncio em relação ao domínio público. Eu soube, por exemplo, de uma cantora que pagou a uma editora musical em 2009 pela gravação de uma música de Cândido das Neves. Tendo este autor falecido em 1934, desde 2005 sua obra se acha em domínio público – ou seja, cessou, por força de lei, o mandato que a editora tinha para representar os herdeiros do autor. O correto seria a editora comunicar à cantora que a obra estava liberada e que ela poderia gravá-la sem ônus. Na mesma época, um cantor me procurou porque queria lançar uma compilação, semelhante à que fiz de Noel, de obras de Sinhô, morto em 1930 e cuja obra está liberada desde 2001. Ao buscar os fonogramas originais nas gravadoras, era informado, erroneamente, que a cada mudança de suporte (ou seja, do 78 rpm para o LP, deste para o CD, MP3 etc), a contagem de 70 anos de proteção se reiniciava (não há nada parecido com isso escrito na Lei do Direito Autoral em vigor no país, a 9610/98).

É bom não esquecer que o papel do direito autoral é assegurar um período de exclusividade ao autor e seus herdeiros, para a exploração comercial de sua obra. Findo esse período, a obra passa ao domínio público, se tornando então patrimônio de todos; fica, porém, assegurado, eternamente, o direito moral do reconhecimento da autoria. Esse é o mesmo princípio das patentes de invenções – por exemplo, Alexander Graham Bell inventou o telefone e durante alguns anos sua empresa, a Bell, teve o monopólio legal assegurado; acabado esse período, qualquer outra empresa poderia fabricar telefones, com o que o consumidor ganhou, por meio da concorrência, melhorias técnicas e redução de custos. Enfim, por não encarar o domínio público com a mesma visão que o dono da Legatus, Alexandre Pires Vieira, algumas gravadoras e editoras adotam as atitudes citadas no parágrafo anterior. Ao lado da desinformação, pode acontecer também a pressão sobre os legisladores para a extensão do prazo de proteção. Nos Estados Unidos, o prazo, que era de 70 anos, passou a ser de 90, em 1998; a emenda ganhou o apelido de “Mickey Mouse Protection Act”, pois se comentava que a Disney é que teria exigido a prorrogação, para evitar a liberação dos filmes mais antigos do camundongo.

Cartaz do primeiro filme sonoro de Walt Disney com o Mickey, 
lançado em 1928, e que teria motivado o "Mickey Mouse Protection Act”



Observem que Brasil e Estados Unidos adotam prazos de proteção diferentes. Pois é, cada país é livre para fixar o período que lhe parecer melhor, desde que não seja inferior ao estabelecido pela Convenção de Berna - 50 anos. Essa autonomia acaba gerando um efeito colateral preocupante: a falta de parâmetros claros sobre qual legislação deve ser considerada em cada caso. A ponto de, no site Domínio Público, o próprio Ministério da Educação admitir que “as diferentes legislações que regem os direitos autorais de outros países trazem algumas dificuldades na verificação do prazo preciso para que uma determinada obra seja considerada em domínio público.”

Pode não parecer, mas 70 anos post mortem é muito tempo. No caso de obra em parceria (muito comum no campo da música), a contagem do prazo só começa após a morte do “último dos co-autores sobreviventes”, como diz o artigo 42 da Lei 9610. Peguemos um exemplo, o caso de “Carinhoso”, choro que Pixinguinha compôs no começo dos anos 1920 e que foi letrado por João de Barro em 1937. Como Pixinguinha morreu em 1973, e João de Barro em 2006, “Carinhoso” só passará ao domínio público em 2077, mais de 150 anos depois de ter sido escrita!

É possível alterar isto? Não muito. O direito autoral é regulado desde 1886 pela Convenção de Berna. O Brasil, sendo seu signatário, deve seguir vários princípios ali fixados, como esse do prazo mínimo de 50 anos. O país que ousar fixar um período menor arrisca-se a ser excluído do acordo e ver seus criadores intelectuais perderem o direito à proteção no exterior. Sou favorável a que, na revisão que o Congresso Nacional deve fazer em breve na Lei do Direito Autoral, o prazo de proteção seja reduzido para 50 anos.


 Laura Dantas 
(Foto: Eduardo Matos)


Seria importante que mais gente no Brasil entendesse os benefícios econômicos e culturais do domínio público. São raras as iniciativas como a minha, criando um hotsite com toda a obra já liberada de Noel Rosa. Ou projetos como o Noel Inédito, da cantora e compositora baiana Laura Dantas, que musicou letras de Noel cuja melodia se perdeu. Vários outros compositores importantes já estão com as obras em domínio público - cito apenas três: Carlos Gomes, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth. Acima de tudo, entendo que falta, principalmente, um referencial. Algo que dê visibilidade às obras em domínio público. Penso que artistas que estivessem pesquisando repertório para um CD ou roteirizando um novo show poderiam consultar uma base de dados para ter opções de obras pelas quais, legalmente, não precisariam pagar direitos autorais, reduzindo consideravelmente seus custos de produção. Óbvio que sabemos que este não é o único critério a levar em consideração (a qualidade da obra e sua identificação com o intérprete certamente pesarão mais), mas não deixa de ser relevante – além de ajudar a colocar novamente em circulação na sociedade obras criadas há pelo menos 70 anos, e que fazem parte do rico patrimônio cultural de nosso país.



  • Making-off do texto - Meu terceiro texto para o Rockazine, publicado no site em 3.10.11 e saído na terceira - e última - edição da revista (capa ao lado), no mesmo mês. 
  • O título original do texto era "A Propósito de Domínio Público". Eu mesmo pedi para modificá-lo antes da publicação.
  • Atualização 22.9.17: Este texto foi republicado na íntegra, sem me creditar como autor, no blog Cultura de Domínio Público, em 13.7.13 - não sei se o pior foi não me creditar, ou elogiar meu texto como "escelente" [sic]. Houve um comentário de leitor em 2015. O blog durou apenas 18 posts, entre junho e julho de 2013, e seu autor assinava apenas MARCMOSHE. Uma pista do seu (talvez) verdadeiro nome aparece no primeiro post, ao se reproduzir uma correspondência do MinC endereçada ao "Senhor Emerson". Possivelmente ele fosse de Porto Alegre, pois em vários posts menciona a programação da POA TV, canal por assinatura da capital gaúcha - neste post inclusive dá a entender uma ligação do blog com um programa dessa emissora, logicamente não captável em outros estados. 
  • Têm sido persistentes os boatos sobre o fim do site Domínio Público, sempre "em breve" - numa rápida pesquisa agora, encontrei dois desmentidos - um do Blog do Lucho, de 2009, e outro do Boatos.org, de 2016. É evidente que é louvável que o MEC ofereça todo o conteúdo reunido ali, mas além de manter a interface espartana, o site não parece vir sendo atualizado, não da forma como se esperava - acabei de fazer uma pesquisa com os termos "som  - Noel Rosa - português" e o resultado foi nulo - isto a pouco mais de dois meses de se completar 10 anos da passagem da obra de Noel ao domínio público! O ideal é que a cada ano, preferentemente em janeiro, fossem incorporadas ao site as obras dos autores cuja morte estivessem completando então 70 anos. 
  • Atualização 22.9.17: Não lembrava mais, após 6 anos, qual era minha fonte para a menção à editora Legatus. Encontrei-a na edição 305 da revista Info Exame, de julho de 2011 (meu artigo foi enviado ao Rockazine em 16.8). Na época, eu comprava em banca, mensal e religiosamente, apenas duas revistas: a Info e a Você S/A. A edição 305 pode ser lida e baixada na íntegra no Issuu. A reportagem de Maurício Moraes (com a foto que utilizei para ilustrar meu artigo) chega a mencionar - classificando a atitude como um "deslize" - o não-pagamento da editora aos tradutores das obras estrangeiras que publicava (nem todas as traduções se encontravam igualmente em domínio público) e até uma ameaça de processo ao editor. Mas é difícil considerar o caso como um "deslize" qualquer: pesquisando ontem sobre a Legatus no Google, encontrei uma série de posts do blog não gosto de plágio, da tradutora Denise Bottmann, sobre inúmeros problemas nos créditos das traduções dos livros editados por Vieira, e inclusive com leitores comentando que se sentiram lesados. A maioria dos posts é de fevereiro de 2011, cinco meses antes, portanto, da publicação da Info. Atualmente, a Legatus não tem mais nenhum livro à venda na Amazon; a empresa, cujo nome registrado é Montecristo Editora e Treinamento Ltda. ("Legatus" é um nome fantasia, o que é perfeitamente legal), tem como atividades descritas neste site "Treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial; Serviços de organização de feiras, congressos, exposições e festas", sendo portanto um caso curioso de uma empresa que tem editora no nome e não publica livros. 
  • Lançado por mim em agosto de 2011, o blog Noel Rosa Sempre saiu do ar em 18.9.16.
  • A frase (entre parênteses) sobre o "pagamento pelo CD" ("o único pagamento exigido do interessado é o envio de uma mensagem sobre o CD para sua rede social") se refere ao serviço PagSocial, que solicitava que ao baixar gratuitamente algum conteúdo, o internauta postasse sobre o produto baixado em alguma de suas redes sociais (Twitter, Facebook ou Orkut). O serviço segue no ar, porém alterou radicalmente seu modo de funcionamento sem aviso prévio, de modo que atualmente não recomendo seu uso. Clicando no nome do CD, o download iniciará imediatamente. 
  • Sempre vi a data da composição de "Carinhoso" da forma como mencionei ("no começo dos anos 1920"). Mais recentemente, parece ter havido um consenso de que Pixinguinha escreveu esta música em 1917. Isto, porém, não influi na contagem do tempo para a passagem ao domínio público. 
  • Não chegou a haver até hoje uma revisão pelo Congresso Nacional da Lei do Direito Autorial em vigor no Brasil - segue valendo a de 1998, citada e linkada no texto. Apenas, após o fim da CPI do ECAD, em abril de 2012, o Senado aprovou projeto de lei proposto pela própria CPI, modificando o funcionamento do ECAD (o que afeta apenas a arrecadação de direitos na área da Música). Remetido à Câmara dos Deputados em julho de 2013, o projeto aguarda votação. 
  • O hotsite com a obra liberada de Noel Rosa esteve no ar no site Brasileirinho entre 2008 e 2016. Atualização 22.9.17: A partir de hoje, este material começará a ser publicado aqui no blog - pesquise pela tag Sextas do Noel
  • Laura Dantas apresentou pela primeira vez suas melodias para letras inéditas de Noel Rosa no show Mil Tons, no Teatro do Irdeb (Salvador) em 7.12.10; a gravação do show foi exibida pela TVE-BA em 31.7.11.





quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O "fim" do MySpace (Ovelhas Desgarradas - 40)

Ainda referência em música na internet, 
site não tem justificado a fama,
perdendo em funcionalidade para os 
brasileiros PalcoMP3 e Conexão Vivo


Outro dia eu conversava pelo bate-papo do Facebook com uma artista cujo trabalho recém-conhecera pela internet: a cantora capixaba Tabatha Fher. Quando perguntei onde podia ouvir o seu trabalho, ela respondeu que ainda está finalizando seu primeiro CD, e que por enquanto eu poderia ouvi-la em sua página no MySpace.


Tabatha Fher
(Foto: Rodrigo Rosenthal) 


De fato, o MySpace ainda é o primeiro nome que vem à cabeça da maioria das pessoas quando se fala em música na internet. Porém, entendo que há muito o site deixou de justificar a fama. Ao longo do tempo, o MySpace foi deixando de lado o que tinha de bom (outrora uma plataforma de downloads, hoje o site parece mais uma central de vendas de música digital) e, simultaneamente, nada fez para resolver seus pontos fracos (o player, pesado, é a última coisa que carrega na página). Sem contar que, hoje, se você não estiver logado no site, vai poder ouvir no máximo 3 músicas, depois disso só tem liberado 30 segundos de cada faixa. A exigência de login se deve ao fato do MySpace ter tentado se tornar (talvez tarde demais), uma rede social. Mas quem vai abrir uma conta no site apenas para ouvir música aos pulos, já que o player emperra a todo momento?

Foram coisas como esta que respondi à banda amazonense Amazônica (foto ao lado - crédito: divulgação), que por várias vezes me escreveu no Twitter pedindo que eu visitasse seu MySpace. A banda agradeceu a dica, e aproveitou para perguntar quais seriam então os melhores sites para deixar o som à disposição. Eu indiquei o PalcoMP3, o Conexão Vivo e o 4Shared.

Destes, os que mais se assemelham ao MySpace são os brasileiros PalcoMP3 e Conexão Vivo. A banda cria sua página, inclui release e fotos e sobe suas músicas. Nos dois o player começa a rodar tão logo se abra a página. Quanto a downloads, no Conexão Vivo isto é opcional, enquanto é a regra no PalcoMp3 – tudo que ali pode ser ouvido pode ser baixado. Talvez por isso o site ainda tenha pouca presença de artistas de MPB – muitos ainda torcem o nariz para downloads, apostando na venda do CD físico.

Já o 4Shared segue outra lógica – ele é antes de tudo um site de compartilhamento e hospedagem de arquivos, sendo mais utilizado pelas bandas para lançamentos de CDs, EPs e singles. Ao contrário de similares como o Mediafire e o Rapidshare, o 4Shared dificilmente apaga seus arquivos sem aviso prévio (a internet está cheia de blogs indicando links para download que já expiraram). Além disso, o 4Shared permite que você escute online o som hospedado, antes de decidir se baixa ou não – é possível inclusive obter o código do player para publicá-lo em seu site ou blog, exatamente como se faz com os vídeos do YouTube.

O YouTube, aliás, acaba também sendo uma opção para a difusão de som, como talvez a mais poderosa alternativa ao MySpace. Foi, por exemplo, a solução que adotei para conhecer melhor o trabalho de Tabatha Fher, até que seu CD seja lançado.


  • Making-off do texto - Texto publicado em 1.5.11 no site Rockazine (atualmente fora do ar) e incluído no nº 2 da revista de mesmo nome, uma iniciativa da jornalista paulista Karina Francis. Para saber mais sobre o projeto, leia o depoimento dela ao Som do Norte que publiquei em 3.4.10. 
  • Bom, como a maioria de vocês sabe, o MySpace segue no ar, mas já não tem mais a importância que teve na difusão musical há algum tempo, que estava de fato mostrando o prenúncio de seu final na época que escrevi este artigo. Acessei o site agora e ele tá mais para um portal de cultura pop que também tem música e vídeos.
  • Dos outros mencionados, o Conexão Vivo saiu do ar. O PalcoMP3 segue a mesma filosofia de permitir baixar o que estiver postado. Já o 4Shared se tornou menos amigável na hospedagem de arquivos, o que ficar sem ser acessado por um tempo é apagado do site. De modo que, ante as alternativas serem sites onde você paga para ouvir música (e com nomes estranhos como Spotify e Tidal), eu sigo usando o YouTube como um grande "vitrolão" (recentemente ouvi lá todos os LPs lançados por Elvis Presley). 
  • O Mediafire ainda existe; o Rapidshare encerrou as atividades em 2015.
  • Logo após a publicação, recebi comentários de que faltaram menções a serviços similares como a Trama Virtual (atualmente também fora do ar). Pensei em alterar o texto, mas acabei descartando a ideia ao conhecer o e-book Para entender as mídias sociais, em especial o texto "Música", da jornalista paulista Kátia Abreu, que menciona a Trama e outros sites então em voga, como o Oi Novo Som e o Toque no Brasil (este ainda em funcionamento). Optei então por republicar o texto de Kátia Abreu no Som do Norte em 31.5.11. O Soundcloud já existia desde 2007, mas não foi mencionado por mim porque só se popularizou por volta do final de 2011 (creio que Kátia não o tenha citado pelo mesmo motivo). A primeira menção ao Souncloud no Som do Norte se deu em junho de 2011, ou seja, no mês seguinte à publicação deste artigo. 
  • Tabatha Fher ficou conhecida nacionalmente ao participar da quarta edição do programa The Voice Brasil em 2015. Nesse ano, foi lançado um EP com algumas das músicas do CD que menciono no início do texto (cheguei a ouvir o disco, praticamente pronto, no escritório da produtora paulistana S de Samba em junho de 2012). 
  • O nº 1 da Rockazine saiu em dezembro de 2010 (o site entrou no ar no dia 3 desse mês). No número de estreia, colaborei com o texto "De imparcialidade e parcerias: Rock no Som do Norte", que pode ser lido neste post. Foi o 4º texto mais lido do site da revista naquele mês (995 acessos).
  • No intervalo entre os nºs 1 e 2, meu texto "O novo som de Belém" saiu em 4.1.11 no site da Rockazine, sendo minha única colaboração para lá que não saiu na revista (era uma republicação do texto original que saíra no Som do Norte em 19.12.10). Enquanto em meu blog o texto foi lido 290 vezes até hoje, apenas em 6 dias no site da Rockazine ele foi acessado 642 vezes! 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Plauto Cruz: Choro Alegre (Ovelhas Desgarradas - 39)

Porto-alegrenses podem ouvir toda semana
um dos melhores flautistas do País – de graça


A estreia de minha coluna no Prosa em Verso, na terça passada, falando dos Retrofoguetes, repercutiu bem mais do que eu podia imaginar. Recebi ótimos comentários, o primeiro sendo do colega colunista GenteFina, me cumprimentando por ter entrevistado Altamiro Carrilho. Sempre digo que Altamiro é um dos dois maiores flautistas do Brasil. O outro é o gaúcho Plauto Cruz.

Altamiro e Plauto já dividiram o palco num show do projeto O Choro é Livre que marcou época em Porto Alegre. Em 11 de novembro de 1984, os dois tocariam no foyer do Theatro São Pedro, cuja capacidade é para... 90 pessoas. O local naturalmente se revelou pequeno e o encontro histórico foi transferido para o palco principal do Theatro (700 lugares). No livro Som do Sul (2002), Henrique Mann escreveu no capítulo dedicado a Plauto: “Uma multidão acorreu ao evento que reunia dois monstros sagrados da flauta brasileira. Lotação esgotada por um público múltiplo em faixa etária e classe social. Muita gente teve que voltar para casa sem conseguir entrar no Theatro São Pedro.”

Aquele show de 1984 eu não vi, nem morava em Porto Alegre. Atualmente, ouço Plauto todas as quintas no bar Odeon. Ele só não toca quanto tem algum show fora da cidade, ou por motivo de saúde. Assim foi no começo do ano: sofreu um infarto em janeiro, porém se recuperou incrivelmente rápido para alguém de 80 anos e antes do Carnaval já estava de volta, tocando ao lado da pianista Dionara Schneider, do saxofonista Mário Thaddeu e do cantor Celestino Santana, o Tino, o intérprete oficial da única música de Plauto que tem letra (escrita pelo próprio flautista): o samba-canção “Força Atraente”, composto nos anos 1950 e ainda inédito.

De fato, boa parte de sua obra ainda não foi gravada. Talvez pelas poucas oportunidades que Plauto teve para fazê-lo. Chegou a atuar como instrumentista em mais de 40 discos - acompanhando artistas como Lupicínio Rodrigues, Kleiton & Kledir, Ângela Maria e Silvio Caldas - porém, os discos que assinou se resumem a oito: O Choro é Livre (1977), Nós, os Chorões (coletivo, 1980), O Fino da Flauta (1981), Engenho e Arte (com Mário Barros, 1995), Em Novos Tempos de Seresta (1998), Choros e Canções (1999) e O Mago da Flauta (2002). Há mais um CD, gravado ano passado. Enquanto este lançamento não acontece, ouçamos o choro “Ginga no Samba”, do CD O Mago da Flauta. Curte o som!





  • Making-off do texto - Minha segunda coluna "Curtissom" para o Prosa em Verso, da escritora Tatiana Monteiro. Foi publicada em 30 de março de 2010. Chegou a ser republicada no site Brasileirinho.
  • Foi também a minha última colaboração publicada no P&V. Cheguei a enviar um terceiro texto em 4 de abril, porém Tatiana sofreu um infarto no dia seguinte, vindo a falecer com apenas 30 anos. Pouco tempo depois, seu site saiu do ar. 
  • O terceiro e último texto da "Curtissom" foi publicado no Som do Norte em 8 de abril de 2010: Curtissom: Boddah Diciro e o Prazer de Tocar. A publicação foi assim destacada no Fotolog da banda no dia seguinte (inclusive aproveitando a chamada do informativa Rapidola do mesmo dia, onde utilizei um bordão que seguidamente eu usava no Twitter do Som do Norte, parodiando antigo anúncio da Philips) - e que, salvo engano, é a única menção remanescente à coluna "Curtissom" fora as republicações que venho fazendo:
Curtissom: Boddah Diciro e o prazer de tocar

(...) Enquanto preparamos novidades segue uma quentinha para vocês aê =D

Banda do Tocantins segue tradição pouco comentada: a inclusão de faixas instrumentais em CDs cantados.
Então.....
O que une a Boddah Diciro, os Novos Baianos e os Paralamas do Sucesso?

Então o jornalista Fabio Gomes do super blog Som do Norte sabe! Porque tem coisas que só o Som do Norte conta pra você!

Leia Agora!

  • Ouvi Plauto Cruz semanalmente no bar Odeon entre fevereiro de 2009 e junho de 2010, quando me mudei para Belém. Ele seguiu tocando no bar até o final de 2011, quando então a saúde já não lhe permitia prosseguir com aquela rotina semanal. 


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Retrofoguetes, ativar! (Ovelhas Desgarradas - 38)

Banda baiana é destaque na nova
 safra do instrumental brasileiro

  
Um dos momentos mais felizes da minha carreira de jornalista cultural foi entrevistar o flautista Altamiro Carrilho, em 2003, para o site Brasileirinho. Uma das coisas que ele disse que mais me marcaram foi, ao lembrar as caravanas que nos anos 1950-60 divulgavam a música brasileira no exterior: “O sucesso das caravanas foi enorme, porque nós tocávamos 90% de música instrumental. Sem barreiras de idioma. O idioma é uma barreira enorme fora do Brasil. Elis Regina chegou a ir numa das últimas caravanas. Com todo o sucesso que ela conseguia no Brasil, lá fora ela perdia para meus instrumentistas. Por causa do idioma. Agora, instrumental era sempre sucesso garantido.”

O espaço para a música instrumental no Brasil era realmente maior naquela época, depois uma série de interesses da indústria fonográfica “decretou” que só música cantada (de preferência, com refrão pegajoso) podia fazer sucesso - e o que não se encaixava nisso era tratado como algo à parte. Aos poucos, com o declínio das majors e a articulação da cena independente, isso foi mudando, graças a Deus. Lembro da minha alegria ao constatar que, entre os melhores shows do Festival Varadouro, em Rio Branco, Acre, em 2008, em que naturalmente predominavam na programação bandas que cantavam, vários dos shows de destaque eram instrumentais: Pata de Elefante (RS), La Pupuña (PA) e os peruanos do Bareto, que “fizeram aquele que foi para mim o grande show do Varadouro 2008. Não só para mim, com certeza, afinal foi este o único show que fez as pessoas dançarem na segunda noite”, escrevi no site Jornalismo Cultural.

Foi por meio dos paraenses da Pupuña que vim a conhecer o som dos Retrofoguetes. Este grupo baiano - formado por Morotó Slim (guitarra), CH (baixo) e Rex (bateria) - convidou seus amigos nortistas para tocarem este ano no Trio Foguetão, no carnaval de Salvador. O trio da banda integra o projeto Retrofolia, que visa resgatar antigas tradições carnavalescas, e que neste ano contou com um baile de salão e dois desfiles, um no Barra-Ondina e outro no Pelourinho, sem haver cordas separando as pessoas, nem abadás vendidos a preços exorbitantes. O próprio fato de sair sem cantor no carnaval já é por si só um resgate: nenhum trio elétrico tinha cantor até que Moraes Moreira letrou “Double Morse”, de Dodô e Osmar (rebatizando a música como “Pombo Correio”), e saiu no trio deles, em 1976 – o resto da história você já sabe.

Já o som dos Retrofoguetes, com certeza, de tradicional não tem nada! Associados com a surf music desde o primeiro disco – Ativar Retrofoguetes! (2003) –, hoje sua alquimia sonora funde ingredientes tão diversos quanto o rockabilly, o tango, jazz, funk, soul, polca e... mambo, como vamos ouvir em seguida, em “Maldito Mambo!”, faixa do CD Chachachá (Indústrias Karzov, 2009). O disco coleciona reconhecimentos: para a revista Rolling Stone Brasil, foi um dos 25 melhores nacionais de 2009; para o jornal A Tarde (Salvador), ficou em 3º lugar; e para a revista e portal Rockpress, ele foi o melhor e ponto. Curte o som!




  • Making-off do texto - A banda Retrofoguetes fez uma pausa nas atividades entre 2012 e 2013, retornando como quarteto, mantendo apenas Rex da formação mencionada no texto; os novos integrantes são Julio Moreno (guitarra), André T (teclados) e Fábio Rocha (baixo). 
  • O texto tem uma 'pegada' de script pra rádio, mas de fato foi meu artigo de estreia na coluna "Curtissom", que escrevi por breve período de 2010 no site Prosa em Verso, da escritora e editora Tatiana Monteiro, residente à época em Cordeiro (RJ). Minha amiga virtual há pelo menos um cinco anos nessa época, Tatiana me convidou para integrar a equipe na reformulação de seu site, carinhosamente chamado "P&V". A matéria entrou no ar em 23 de março de 2010 e chegou a ser republicada no site Brasileirinho, hoje fora do ar. 
  • A foto mostra um momento do evento Retrofolia, realizado em Salvador em fevereiro de 2010. Creio que já tenha sido enviada a mim pela assessoria da banda sem crédito para o autor. 
  • Foi minha primeira coluna em site após ter começado a minha "fase blog". Coube a mim escolher o tema e o nome da coluna, sobre os quais assim falei num "texto de perfil" solicitado pela Tatiana e que enviei em 17 de março: 

Tema: Música instrumental brasileira
Nome da coluna: Curtissom
Nome: Fabio Gomes
Periodicidade: Semanal
Dia da semana para entrada no ar: Terça-feira
  • pequena biografia: Fabio Gomes, jornalista, gaúcho, tem três livros publicados e edita os sites Brasileirinho e Jornalismo Cultural. Lançou em 2009 o blog Som do Norte. Tem participado de debates sobre Jornalismo Cultural e música brasileira em vários estados do Brasil.
  • tema da coluna e o porquê do nome dela: Escolhi escrever aqui toda semana sobre música instrumental brasileira por três motivos. Em primeiro lugar, brasileira porque não me considero suficientemente informado sobre a música de outros países para poder falar dela com propriedade. Em segundo lugar, porque este foi um tema do qual eu sempre gostei, que abordei sempre que possível nos diversos lugares onde trabalhei, mas nunca como tema principal, como será aqui. Terceiro, porque pela primeira vez na vida vejo que o chamado "grande público" vem aceitando a música instrumental como uma manifestação cultural tão válida quanto qualquer outra, e não mais algo "difícil" ou "chato". O nome é, como espero que dê pra notar, um trocadilho com a gíria "curtição" e a palavra "som" - que é o que, convenhamos, há para curtir numa música instrumental, que abdica do recurso à palavra, aparentemente de comunicação mais imediata - mas nem por isso mais eficaz, necessariamente.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O jornalismo cultural na era das mídias sociais

Com o advento das redes sociais, os artistas (em especial os da música) passaram a se comunicar diretamente com seu público, não necessitando mais da antiga "ponte" que o jornalismo cultural representava. Este é o tema central de um texto que escrevi no ano passado, intitulado Caiu na rede, virou social, saído primeiro no blog Roraima Rock'n'Roll, e republicado aqui. E também a ideia principal do artigo Tribalistas não precisam de jornalismo, escrito por Pedro Varoni e publicado no site Observatório da Imprensa em 15 de agosto deste ano.

Varoni se referia à live que o supergrupo formado por Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte fizera no Facebook, sem aviso prévio, na noite de 9 de agosto. No dia seguinte, anunciaram o lançamento de um EP no inédito formato Hand Album, criado em dois dias (!) a pedido de Marisa por engenheiros brasileiros com suporte de colegas europeus e norte-americanos do Facebook e Spotify. O formato visa proporcionar a quem ouve um álbum no smartphone uma experiência similar à de se ouvir um CD físico (saiba mais neste texto de Igor Ribeiro para o site Meio & Mensagem). Varoni também destaca a queixa de Nando Reis, ao participar do programa de Pedro Bial em 19 de junho, dando conta de que o "caderno de cultura do maior jornal de São Paulo" não dedicara uma "única linha ao trabalho" - no caso, o mais recente CD de Nando, Jardim Pomar (2016).

Não encontrei dados sobre vendas (ainda se fala nisso? - risos) ou audições do CD de Nando, mas é evidente que, mesmo que um jornal não tenha falado do disco, outros falaram e as próprias redes sociais do artista se encarregaram de espalhar a notícia (apenas no Instagram ele tem 403 mil seguidores). Sobre os Tribalistas, o próprio Varoni refere que a live foi vista por 5,62 milhões de pessoas em 52 países. Isto o leva a afirmar que "As novas formas de circulação são mais democráticas e não precisam do antigo modelo de mediação que dependia de critérios eletivos dos jornalistas culturais, quando não do poder econômico das gravadoras" - conclusão que endosso inteiramente. Já falei certa vez que no antigo sistema gravadoras e jornalismo cultural (mais aquelas que este, evidentemente) decidiam "quem podia" ser artista. Hoje a internet possibilita que todos possam mostrar o seu trabalho sem intermediários.

As mudanças nessa área podem ser melhor traduzidas através do trabalho de divulgação dos três mais recentes CDs de Chico Buarque. Em 2006, ao lançar Carioca, a gravadora Biscoito Fino produziu um documentário sobre os bastidores do álbum, exibido parcialmente no programa Fantástico (TV Globo) juntamente com uma breve entrevista do cantor à repórter Tatiana Nascimento. Em 2011, quando saiu o CD Chico, ele fez uma auto-entrevista (!) transmitida pelo hotsite Chico: Bastidores, outra iniciativa da Biscoito Fino. Já agora em 2017, o CD Caravanas foi precedido da estreia do artista no Instagram e do single digital "Tua Cantiga", além de vídeos com trechos das faixas "Massarandupió", "Dueto" e "As Caravanas".  A três dias do lançamento do CD, a Biscoito Fino enviou à imprensa um "link sigiloso" (como definiu O Globo) dando acesso ao álbum, mais fotos, encarte e um texto do jornalista Hugo Sukman detalhando as referências das canções (enfim, uma versão contemporânea do antigo "press kit").




Embora eu tenha um blog com o nome de Jornalismo Cultural, creio que o espaço onde mais exerci de fato o que entendo como jornalismo cultural foi o Som do Norte, de sua criação em 2009 até 2015. Comecei o ano retrasado parando de postar agenda de shows no blog, já que a audiência dessas postagens era pequena; as pessoas hoje se atualizam sobre shows em sua cidade através das redes sociais. Decidi então investir em entrevistas com músicos, porém lá pro meio do ano comecei a ter algumas recusas. Entendi então que, como disse Varoni no trecho citado acima, o antigo modelo de mediação representado pelo jornalismo cultural "clássico" não era mais necessário nos tempos atuais.

Mais ou menos na mesma época, em 30 de julho de 2015, o cineasta Jorge Furtado declarou à TV Carta, a propósito de seu filme O Mercado de Notícias, que "a imprensa praticamente perdeu o sentido" de existir. Eu não iria tão longe, mas o fato de eu ser um jornalista pode estar influindo na minha percepção (risos).

Evidentemente eu não tenho como dizer para onde o jornalismo cultural como um todo deverá ir, ou tentar prever o que vai acontecer. O que posso é decidir o que vou fazer a partir do quadro atual. Nesses últimos dois anos tenho priorizado meu trabalho ligado às imagens, sejam fixas (Fotografia), sejam em movimento (Cinema), com o jornalismo cultural presente em vários destes trabalhos, como o projeto As Tias do Marabaixo, por exemplo. Quanto ao jornalismo propriamente dito, tenho preferido escrever artigos como este tanto para meus blogs quanto na coluna do Digestivo Cultural, ao lado da republicação de textos meus escritos em épocas diversas e que nunca postei em meus próprios blogs. A quantidade de acessos não chega a ser muito expressiva, mas de todo modo creio que estou oferecendo um conteúdo menos perecível do que fazia quando minha prioridade era postar agenda de shows - em sua maioria, estes posts jamais voltavam a ser acessados após a realização do evento.


* Publicado originalmente no 
Digestivo Cultural - 11.9.17

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Caiu na rede, virou social (Ovelhas Desgarradas - 37)



Em 2009, quando lancei o blog Som do Norte, pode-se dizer que estávamos na Pré-História das redes sociais. Quem dominava esse mercado aqui no Brasil era o Orkut, e nos Estados Unidos e parte da Europa o MySpace – sim, ele pretendia ser uma rede social, embora tenha se destacado por algum tempo pelas postagens de músicas. Mesmo assim, sem liberar um código para inserir as canções em sites, blogs ou outras redes sociais, pode-se dizer que o MySpace tinha uma interface monolítica, ainda mais se comparado com o talvez seu principal sucessor, o Soundcloud.

Num cenário como o descrito, era útil e por vezes até necessário para artistas e bandas independentes entrar em contato com os principais sites e blogs existentes, voltados para o tipo de som que faziam e/ou o recorte geográfico em que se inseriam, uma vez que estes espaços, geralmente criados por jornalistas ou aficionados da área, acabavam se tornando referência e atraindo a audiência de um público que poderia se interessar pelo som daquela banda X (ou daquele artista Y).

Esse cenário começou a se modificar, pelo menos no Brasil, a partir de 2011, com a ascensão entre nós do Facebook, tomando então o lugar que já tinha sido do Orkut e (pasmem) do Twitter até ali. Desde então, não param de surgir espaços onde o próprio artista pode falar diretamente com seu público – e ponha aí Instagram, Google +, LinkedIn, Snapchat e váááárias outras, como vemos na imagem, que inclui até sites que nem pensamos ser uma rede social, como o YouTube. O que acontece é que grande parte dos sites mais acessados do mundo acabou adotando a lógica de rede social, o que, se por um lado pode incomodar alguns internautas, por outro abre uma série de oportunidades para quem precisa se comunicar com um público amplo e divulgar seu trabalho artístico, como por exemplo... artistas e bandas independentes! Yeah!

Se criar um site exigia, quase sempre, a contratação de um webdesigner, e para manter um blog era recomendável que houvesse disciplina e regularidade nas postagens, com as redes sociais o trabalho fica bastante facilitado, pois até mesmo de um celular você pode postar em redes como o Instagram. Já uma plataforma como o Snapchat, onde tudo o que for postado deixará de existir no dia seguinte, abre a porta para uma informalidade impensável num site institucional da banda.

Mas, independente do canal que você escolher para falar com seu público, algumas coisas não mudam. É importante manter um certo nível de linguagem (pode ser informal, sim, pode incorporar algumas gírias e mesmo emoticons, porém não deve ser indecifrável para a maioria das pessoas, salvo se você quiser mesmo falar apenas com um nicho muito específico). É fundamental manter uma periodicidade nas postagens – não precisa ser a toda hora, nem diariamente, mas fica estranho você entrar no perfil de uma banda em atividade e a postagem mais recente ser o anúncio de um show de novembro de 2014. Talvez, se sua carreira decolar, você precise contar com a colaboração de alguém – de preferência um profissional da área de comunicação, nem sempre sua namorada ou seu primo vão ter tempo ou vão saber lidar com as demandas cada vez mais frequentes e elaboradas que irão surgir. E com as próximas redes a serem criadas, é claro.


  • Making-off do texto -  Esse texto foi originalmente escrito para a coluna Papo Cabeça, que mantive em dois momentos no blog Roraima Rock'n'Roll, do meu amigo Victor Matheus Mattos. Produtor cultural e músico (band leader da Veludo Branco), Matheus é um gaúcho de Porto Alegre que mora desde a infância em Boa Vista, onde edita desde 2010 o RRR, que a partir do ano seguinte ganhou também as páginas da Folha de Boa Vista. 
  • Na volta do Papo em 2016, os textos deveriam ser menores, já que a ideia do Matheus é que eles aparecessem dentro da sua coluna no jornal, sendo depois republicados no blog. Novamente foram 5 textos, sendo que este era o único que seguia "desgarrado" - havia sido reproduzido, parcialmente (os dois primeiros parágrafos e o início do terceiro) neste post do Som do Norte. Escrito em Maceió, foi publicado originalmente na Folha de Boa Vista, sendo reproduzido no Roraima Rock'n'Roll em 26 de julho de 2016. Chegou a ser publicado no LinkedIn, no tempo em que eu escrevia por lá, e foi também minha coluna de agosto no Digestivo Cultural. Algumas vezes eu precisei resumir o texto do Papo Cabeça, em virtude do espaço disponível para a coluna no jornal. Desta vez, mesmo o texto tendo 5 parágrafos, isto não foi necessário. Agradeço também ao Matheus ter me ajudado a ver que o título escolhido era bom; eu mandei pra ele com esta dúvida, me parecia um pouco informal demais.